Da praia ao oceano: programações no Salgado paraense chamam atenção para o problema dos resíduos nos ambientes aquáticos da Amazônia

International Coastal Cleanup (ICC) em 2025, na praia de Marieta (Maracanã-Pa). Foto: @rodrigaofonseca

Em várias partes do mundo o mês de setembro tem sido marcado por ações em defesa da vida costeira e aquática. São mutirões que conectam pessoas de todas as idades, culturas e profissões, com objetivo de deixar uma mensagem clara: os resíduos produzidos pela ação humana podem destruir paisagens e trazer danos socioambientais inestimáveis ao oceano, rios, afluentes, mangues e demais ecossistemas interligados.

Em consonância com esses movimentos globais, no Brasil, neste final de semana, várias programações estão previstas. No estado do Pará, acontecerão dois movimentos importantes. Um deles é a ação de limpeza na Praia da Marieta, localizada na Reserva Extrativista Maracanã (PA), promovida neste sábado, 19 de setembro de 2026, de 07h às 14h, com a missão de reunir voluntários, estudantes e instituições na edição do International Coastal Cleanup (ICC) ou Limpeza Costeira Internacional, em parceria com a Raízes Amazônia, startup socioambiental da Amazônia Atlântica.

O evento, que acontece tradicionalmente no terceiro sábado de setembro, é reconhecido como uma importante iniciativa global voltada à sensibilização da sociedade para o tema. A ação é promovida desde 1986 pela organização não governamental estadunidense Ocean Conservancy e reúne, todos os anos, aproximadamente 500.000 voluntários distribuídos em mais de 120 países. No Brasil, a iniciativa é realizada desde 1997, sob a denominação de Dia Mundial de Limpeza de Rios e Praias.

International Coastal Cleanup (ICC) em 2025, na praia de Marieta (Maracanã-Pa). Foto: @rodrigaofonseca

“Esse movimento é primordial porque contribui para a redução de resíduos no ambiente e também visa sensibilizar a comunidade sobre a importância da conservação e do descarte adequado dos resíduos sólidos”, destaca Anne Karoline Raiol, estudante da Faculdade de Oceanografia da Universidade Federal do Pará (UFPA), que participará da ação, ao lado de outros colegas, vinculados ao Observatório da Costa Amazônica (OCA).

A atividade tem, além da limpeza da praia, um importante caráter educativo e socioambiental, promovendo a reflexão sobre a geração, o descarte e os impactos dos resíduos no ambiente marinho e costeiro.

Além de participar da mobilização, os estudantes realizarão análises de microplásticos no sedimento da Praia da Marieta, contribuindo para ampliar o conhecimento sobre a ocorrência desses resíduos no ambiente costeiro.

Da Amazônia ao oceano

Segundo os organizadores, a atividade na Praia da Marieta também permite ampliar o olhar para além do local onde os resíduos são encontrados. Praias, rios, manguezais e oceano fazem parte de um sistema integrado, no qual materiais podem circular entre diferentes ambientes.

O rio Amazonas é uma das principais conexões entre o continente e o oceano Atlântico. Suas águas chegam ao oceano transportando água doce, sedimentos, nutrientes, matéria orgânica e outros materiais provenientes de sua extensa bacia hidrográfica.

Essa ligação também ajuda a compreender a circulação dos resíduos. Aquilo que é descartado de forma inadequada pode alcançar cursos d’água, ser transportado pelas águas e chegar às regiões costeiras. Já no litoral, a dinâmica das marés, correntes e ventos pode contribuir para a redistribuição desses materiais.

Por isso, observar o que é encontrado em uma praia também significa fazer perguntas sobre a origem dos resíduos, seus caminhos pelo ambiente e as relações entre cidades, rios, florestas, comunidades e oceano.

É nesse contexto que ações realizadas no litoral paraense dialogam com questões de interesse do Observatório da Foz do Amazonas. A costa não pode ser compreendida de maneira isolada: processos que acontecem em terra, nos rios e no mar estão relacionados e ajudam a formar um ambiente costeiro complexo e dinâmico.

Microplásticos serão analisados por estudantes de Oceanografia da UFPA

Durante a ação na Praia da Marieta, os estudantes de Oceanografia da UFPA analisarão microplásticos presentes no sedimento, visando identificar a ocorrência desses pequenos fragmentos e ampliar o conhecimento sobre a presença desse tipo de resíduo nos ambientes costeiros.

Iniciativa aproxima ciência e mobilização comunitária 

Os futuros oceanógrafos atuam na sexta, 18 de setembro, como educadores ambientais na Escola Municipal José de Paiva Osório (Maracnã-Pa), com ações voltadas às crianças sobre os impactos da poluição plástica nos animais marinhos.

Durante a ação, também será apresentado o projeto Precious Plastic da UFPA, coordenado pela professora Sury Monteiro, vice-diretora da Faculdade de Oceanografia/UFPA. A iniciativa aborda possibilidades de reaproveitamento e transformação de resíduos plásticos como estratégia de mitigação da poluição e incentivo a práticas sustentáveis.

Em Salinópolis entra em cena o World Cleanup Day

Praia do Atalaia, em Salinópolis (Pa). Foto: Agência Pará

Outra mobilização no Pará, neste final de semana, será realizada a partir deste sábado, 19, no município de Salinópolis, e integra o World Cleanup Day ou Dia Mundial da Limpeza. Trata-se de uma programação anual, iniciada em 2008, na Estônia, por iniciativa do movimento Let’s Do It! World, reunindo milhares de voluntários em uma grande ação de limpeza. Desde então, a iniciativa se tornou um movimento global de mobilização pela redução do lixo e pela preservação do meio ambiente.

Em Salinópolis, cerca de 200 pessoas terão como ponto de encontro as praias do Farol Velho, Atalaia, Corvina e Maçarico. Surfistas, estudantes, moradores, ambientalistas, empresários e outros voluntários estarão envolvidos na mesma causa.

Após a coleta, os resíduos serão separados pela Associação de Reciclagem de Salinópolis (Arsal) e encaminhados para o trabalho de reaproveitamento.

Mais do que contabilizar o material retirado das praias, iniciativas como essas ajudam a transformar o resíduo em questões vitais sobre o território: o que foi descartado? De onde veio? Como chegou até a praia? E o que poderia ter sido feito de maneira diferente?

Na Amazônia, essas perguntas ganham uma dimensão ainda maior diante da conexão entre rios, florestas, zonas costeiras e oceano. Cuidar das praias significa também olhar para os rios, os manguezais e as comunidades que vivem nesses territórios.

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