Ciência e Conservação na Foz do Amazonas: Pesquisas Revelam Desafios e Memória Ambiental da Costa Paraense

Estudos apresentados no Congresso Brasileiro de Oceanografia investigam a poluição por resíduos da pesca, a integração de saberes comunitários e o histórico sedimentar no Norte do país.

​A preservação dos ecossistemas costeiros e a valorização do conhecimento local no Norte do país ganham novos contornos a partir dos estudos desenvolvidos por pesquisadores ligados ao Observatório para a Foz do Rio Amazonas. Apresentadas neste ano, no Congresso Brasileiro de Oceanografia (CBO) — promovido pela AOCEANO como o principal fórum técnico-científico das Ciências do Mar no país —, as investigações jogam luz sobre desafios estruturais da Costa Amazônica, englobando desde a poluição por resíduos plásticos até a reconstrução paleoambiental (análise dos ecossistemas e climas do passado geológico) de rios da região.

Pesquisador Nailson Barros durante a apresentação do trabalho sobre manejo pesqueiro e conservação marinha no CBO.

​Poluição plástica e pesca fantasma na região bragantina

​No nordeste paraense, a relação entre o manejo pesqueiro e a conservação marinha foi o ponto central dos trabalhos liderados pelo engenheiro de pesca Nailson Barros, integrante do Laboratório de Pesca e Navegação (LAPEN/UFPA). A amostragem focou no ecossistema do rio Caeté e na Reserva Extrativista (RESEX) Marinha Caeté-Taperaçu.

​As pesquisas mapearam o acúmulo de resíduos sólidos nas praias e estuários decorrentes das etapas produtivas locais, com atenção especial à pesca fantasma — fenômeno em que apetrechos perdidos ou descartados continuam capturando espécies involuntariamente.

​“As pesquisas possuem grande relevância para a nossa região, pois ajudam a evidenciar os impactos da atividade pesqueira sobre os ambientes costeiros e estuarinos da região bragantina, contribuindo para a conscientização e para o desenvolvimento de estratégias de manejo, conservação e uso sustentável dos recursos naturais”, destaca Nailson Barros.

​ A mestranda Anna Carolina Picanço da Silva apresentou o estudo sobre letramento científico em três RESEX do nordeste paraense.

Letramento científico e integração comunitária

​A interface entre a academia e as populações tradicionais foi abordada pela pesquisadora Anna Carolina Picanço da Silva. O estudo sobre letramento científico em três RESEX do nordeste paraense investiga metodologias para integrar o saber acadêmico às práticas cotidianas das comunidades locais, promovendo a salvaguarda de ecossistemas protegidos por meio do diálogo horizontal.

​“É um momento especial para compartilhar minha pesquisa e viver novas experiências na ciência”, afirma Anna Carolina sobre o alcance do debate em fóruns nacionais.

​A pesquisadora Ariane Silva apresentou análises voltadas à reconstituição ambiental do Baixo Rio Xingu.

Bioindicadores e a memória do Baixo Xingu

​No campo das geociências, a pesquisadora Ariane Silva, do Laboratório de Geologia Costeira, apresentou análises voltadas à reconstituição ambiental do Baixo Rio Xingu. A investigação utiliza diatomáceas — algas microscópicas fotossintetizantes — como ferramentas bioindicadoras para compreender a evolução sedimentar e a herança paleoambiental do ecossistema amazônico.

​O uso dessas microalgas permite interpretar transformações históricas nos fluxos de sedimentos, oferecendo subsídios técnicos para prever comportamentos dinâmicos na Foz do Amazonas.

​“Proporciona não apenas a oportunidade de compartilhar experiências e resultados de nossas pesquisas, mas também de reencontrar amigos e colegas pesquisadores”, pontua Ariane Silva.

O mestrando Ítalo Silva apresentou estudo dedicado a compreender a influência dos currais de pesca tradicionais nos estuários paraenses.

Currais de pesca e a dinâmica hidrodinâmica estuarina

​Ainda na região Bragantina, o mestrando Ítalo Silva apresentou estudo dedicado a compreender a influência dos currais de pesca tradicionais na hidrodinâmica e sedimentologia dos estuários paraenses. A investigação analisa de que maneira essas artes de pesca artesanais alteram o fluxo da água, os índices de turbidez e o transporte de sedimentos ao longo da costa.

O trabalho alia o mapeamento das práticas tradicionais ao monitoramento físico dos corpos hídricos, fornecendo dados cruciais para o manejo sustentável e a preservação das bacias costeiras.

​“Apresentar esta pesquisa em um congresso nacional é uma oportunidade de dar visibilidade à ciência produzida na Amazônia, fortalecer a soberania científica brasileira e mostrar como o conhecimento gerado nas universidades pode contribuir para a conservação dos ambientes costeiros e para a valorização das comunidades tradicionais da região”, afirma Ítalo Silva.

​A relevância das Ciências do Mar

​O CBO consolidou-se como a principal vitrine para a oceanografia nacional, conectando a produção científica da academia às demandas do terceiro setor e da gestão pública. O debate das propostas voltadas à Foz do Amazonas reforça a necessidade contínua de monitoramento e geração de dados para subsidiar políticas públicas de conservação e desenvolvimento sustentável na Margem Equatorial brasileira.

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